BRUNO MAGALHÃES CAMPEÃO NACIONAL
“FOI DIFÍCIL CHEGAR AO TÍTULO”
Bruno Magalhães (Peugeot 207 S2000) sagrou-se campeão nacional de ralis, sucedendo a Armindo Araújo, depois de um ano em que a sua superioridade não esteve em causa, como o demonstram as cinco vitórias (Rali Torrié, Rali FC Porto, Rali Centro de Portugal, Rali de Mortágua e Rali Casinos do Algarve) alcançadas, em oito provas, deixando as restantes subidas ao lugar mais alto do pódio a Sebastein Loeb (Vodafone/Rali de Portugal), Fernando Peres (SATA Rali Açores) e Giandomenico Basso (Rali Vinho Madeira).
A garantia da conquista do título aconteceu no Rali de Mortágua, onde o prematuro abandono, por despiste, com consequências físicas para Fernando Prata, de José Pedro Fontes permitiu ao piloto da Peugeot ter a certeza que o título de 2007 era seu.
Na hora do balanço da temporada, a pergunta inevitável era:
- Qual foi o seu sentimento quando soube da desistência do José Pedro Fontes?
- O nosso primeiro sentimento foi de preocupação e quisemos, de imediato, saber qual era o estado de saúde deles. É que temos a consciência que este é um desporto perigoso, que, por vezes, faz vítimas, e no qual, quando estamos lá dentro, arriscamos a vida. Mas antes de sermos adversários, somos amigos que partilhamos o mesmo gosto pelo desporto automóvel, o que faz com que haja uma enorme solidariedade entre todos quantos andam neste desporto. Por isso, o nosso primeiro sentimento foi de preocupação e não de festejo.
- Nesse caso, quando tomou consciência de que era campeão?
- Só no fim do rali. É evidente que sabíamos que, face às circunstâncias, que preferíamos que não se tivessem verificado, tínhamos ganho o campeonato. Mas a nossa primeira preocupação, repito, foi saber do estado de saúde do “Fana”. Depois de sabermos que havia problemas com ele, mas que não eram de grande gravidade, continuámos a fazer o nosso trabalho, tentámos vencer a prova, o que conseguimos, e, então sim, festejámos, já que não tinha sentido entrar em festejos a meio da prova. É que para além do facto de sermos campeões, queríamos ganhar o rali e continuámos a trabalhar para que isso acontecesse.
- Foi difícil ganhar este campeonato?
- Embora possa parecer o contrário, foi um campeonato difícil de ganhar, mas foi, também, um campeonato muito bem preparado por todos nós. Essa é uma pergunta que me fazem com frequência, face à superioridade que exibimos ao longo do ano, que se traduziu em cinco vitórias, em oito provas, e em estarmos na frente quando fomos forçados a ceder nas outras três, já que a única desistência do ano aconteceu nos Açores. Mas os resultados que alcançámos são, acima de tudo, fruto do trabalho que eu, o Paulo e a equipa Peugeot fizemos ao longo do ano. Trabalhámos muito e penso que esse é o segredo do sucesso deste ano.
- A conquista do título era algo de assumido desde o início?
- Claro que sim. Na apresentação da equipa assumimos que esse era o nosso objectivo, pois para nós era evidente que, desde que tivéssemos um carro que nos permitisse lutar pelas vitórias à geral, a conquista do título era o objectivo a alcançar. Quando passámos a dispôr de um carro de quatro rodas motrizes, sabíamos que podíamos lutar pela vitória e assumimos desde logo que queríamos ser campeões.
- Esperava a vantagem que se verificou, na primeira prova da temporada face aos Mitsubishi?
- Penso que essa é uma falsa questão, uma vez que nada indicava que podíamos vir a ter vantagem face aos Mitsubishi. Nessa altura começou a dizer-se que os S2000 eram imbatíveis, que eram “do outro mundo”, mas o que é certo é que, se tirarmos o Armindo Araújo e o Miguel Campos da classificação do ano passado, os lugares são quase os mesmos, do ano passado em que eu e o José Pedro Fontes andámos com um carro de duas rodas motrizes. E é bom não esquecer que, nesse mesmo rali, o ano passado, eu e o José Pedro Fontes, mesmo com carros de duas rodas motrizes ficámos à frente daqueles que dispunham de carros de tracção total, o que torna óbvio que passando, também, nós a dispôr de carros de quatro rodas motrizes, na terra, houvesse diferença. As pessoas falam que é dos carros, mas eu, sinceramente, acho que não é essa a explicação.
- E nas outras provas?
- Verificou-se o equilíbrio que esperava. No Rali de Portugal fizemos uma prova fantástica, com um andamento “do outro mundo”. No Rali do FC Porto perdemos especiais para os Grupo N tradicionais, o que sempre achei possível, como se viu, e normal. Estávamos à espera de ter dificuldades e nesse rali os nossos adversários mostraram que os carros andavam e que podiam lutar pelas vitórias, embora, por isto ou por aquilo, isso não tivesse acontecido mais vezes. É verdade que em determinados troços fizemos a diferença e ganhamos uma boa vantagem, mas tivemos sempre de andar muito depressa.
- O problema mecânico sofrido logo no início do Rali Vinho Madeira causou-lhe uma grande frustração?
- Acima de tudo senti que podia ter lutado pela vitória. É muito frustrante ter preparado uma prova, como o Vinho Madeira, da maneira que o fizemos, com a dificuldade acrescida de se tratar do nosso primeiro rali em asfalto com este carro, de depois suceder o que aconteceu. É que tínhamos como adversários uma série de excelentes pilotos, ao volante de carros muito competitivos, e, com muitos quilómetros em asfalto. E esse foi um pormenor que não foi muito falado. É que é bom lembrar que, tanto eu como o José Pedro, fomos para ali só com testes e testar não é a mesma coisa que correr e não se falou disso. Mas a verdade é que antes de começar o primeiro troço, Super Especial à parte, já tínhamos uma avaria no carro. E, como é fácil de perceber, é algo que não se aceita de ânimo leve. É evidente que uma situação destas pode sempre acontecer a qualquer um e a mim nunca me tinha sucedido. Mas a verdade é que a frustração é enorme, uma vez que ficámos logo a mais de dois minutos do primeiro, o que nos tirou toda e qualquer esperança de lutar pela vitória. Termos terminado em segundo foi, praticamente, um milagre.
- A estreia além fronteiras aconteceu em San Remo. Como é foi?
- Em primeiro lugar, foi uma experiência fantástica. Fomos ao rali mais difícil do IRC, na opinião daqueles que fazem todo o campeonato, dada a especificidade dos troços, que são muito traiçoeiros, o que faz com que o conhecimento do terreno seja fundamental. Para complicar mais as coisas, para além dos pilotos do campeonato IRC, tivemos outros pilotos, que fazem o campeonato italiano, que como sabemos é fortíssimo, ao volante de S2000 e, como exemplo, dos 13 Peugeot 207 S2000 que correm no mundo, estavam lá 12. Pode dizer-se que fomos ao “covil das feras”, fazer uma prova que desconhecíamos totalmente, com apenas três passagens nos reconhecimentos, uma delas à noite. Fomos para o rali às cegas mas foi uma experiência muito importante.
- Tão importante que levou a uma alteração nas notas de andamento…
- As notas mantêm-se as mesmas, mas houve determinados pormenores que foram alterados, face às condicionantes do terreno, já que face ao tipo de troços e com apenas duas passagens por classificativa era necessário, em determinadas curvas, ter mais qualquer coisa. Se calhar se fizéssemos quatro passagens já não precisava, mas com duas precisava e arranjei alguns pormenores que ainda não tinha usado, que se revelaram muito úteis, a tal ponto que os utilizei, logo, em Mortágua.
- A ida a San Remo tornou-o melhor piloto?
- Penso que sim, embora, na verdade, se me perguntarem se determinado troço terminava numa esquerda ou numa direita, a minha resposta é: não sei. Andei às “cegas”, contra os melhores pilotos da Europa, que dispunham de excelentes carros, mas estavam a andar muito bem, graças a um ritmo muito forte, até ao momento em que tivemos o azar de bater num carro que estava atravessado em plena especial, com um conhecimento mínimo do terreno e isso fez-me evoluir não tenho dúvida.
- Quais são as perspectivas para 2008?
- Para o ano iremos, quase de certeza, fazer o Campeonato Nacional e eu gostava muito de fazer provas do IRC. A segunda parte está dependente de encontrar apoios para que tal seja possível, mas espero que o título nos ajude a arranjar os patrocínios que nos permitam concretizar essa vontade.
- Gostava de chegar ao tetra como o fizeram o Carlos Bica e o Armindo Araújo?
- Gostar, gostava, mas se isso significar que só corro em Portugal e não corro lá fora, se calhar não é um bom motivo para o fazer. Não desvalorizo minimanente o Campeonato Nacional, onde há excelentes pilotos e excelentes carros e só é pena que não haja capacidade financeira para dar o “salto”. Quando os melhores pilotos correm em Portugal, nós mostramos que temos andamento semelhante, embora, depois, falte o resto, Mas se tiver hipótese de ser quatro ou cinco vezes campeão nacional e correr lá fora, então, óptimo. Se isso significar que não consigo dar o salto, tenho pena, mas os títulos são sempre bem vindos.
- Quais foram o melhor e o pior momento do campeonato?
- Melhores, felizmente, houve muitos: o primeiro rali, em que as condições eram terríveis e as expectativas eram grandes e onde não sabíamos onde nos situávamos face à concorrência; o Rali de Portugal onde considero que fizemos tempos muito bons; a recuperação que fizemos na Madeira, que foi fantástica, apesar do carro ainda não estar perfeito, mas onde batemos os melhores tempos das especiais. O pior momento foi, sem dúvida, nos Açores: houve um erro de comunicação entre mim e o Paulo, que estava fora do carro, e isso fui fatal para ter avançado para além do que devia, tanto mais que, quando há reagrupamentos, há um comissário a mandar encostar a um dos lados e dessa vez ele não estava lá. O Paulo não me disse para parar e eu que já estava mais preocupado com o que ia melhorar no carro segui embora soubesse que tinha de parar. Mas deu-me uma “branca” e arranquei para a assistência e pensar no que ia pedir à equipa para alterar.
CNR PRESS RELEASE